Preparem-se, galera da InnovaGeek! Quem me conhece sabe que sou fã de carteirinha de um bom terror, e quando o assunto é horror japonês, um nome brilha mais que qualquer outro no meu panteão pessoal: Junji Ito. É surreal pensar que o cara que desenha as coisas mais perturbadoras que já vi, capaz de me fazer questionar a própria sanidade, é, na vida real, um senhorzinho sorridente e super fofo. Mas é exatamente essa dualidade que torna o trabalho dele tão fascinante, e sua mais nova coletânea, “Zona Fantasma”, que acaba de chegar ao Brasil pela Pipoca & Nanquim, é a prova viva de que ele continua no auge da sua capacidade de nos deixar sem dormir.
O Mestre dos Pesadelos e Seus “Causos” de Arrepiar
“Zona Fantasma” é uma verdadeira viagem por oito contos publicados originalmente entre 2020 e 2022, e cada um deles é um convite (ou um empurrão) para o abismo do sobrenatural e do psicológico. O que eu mais amo no Ito é como ele pega aquelas lendas urbanas, os “causos” macabros que a gente ouve na pracinha de cidade pequena, e transforma em algo grandioso, visualmente impactante e, acima de tudo, profundamente perturbador. Ele tem essa habilidade única de nos fazer pensar nos pequenos horrores que se escondem nas ações humanas e nas emoções mais sombrias, quase como um H.P. Lovecraft moderno, mas com um traço que é só dele.
O mangá começa com “A Descida das Carpideiras”, e já te digo: que escolha genial para abrir a coletânea! Ito explora uma tristeza tão avassaladora que se torna física, quase uma alegoria para quando a gente se deixa consumir pela melancolia. Mas, ao mesmo tempo, ele insinua que o choro pode ser uma espécie de alívio catártico. É um conto que te pega pela emoção e te apresenta o estilo inconfundível do autor, com personagens que, em poucas páginas, já te conquistam e te fazem temer por seu destino. É o tipo de história que me faz lembrar de como o terror psicológico, quando bem feito, é muito mais impactante que qualquer *jumpscare* barato de filme genérico.
E essa montanha-russa de sentimentos continua no terceiro conto, “Corrente de Espíritos em Aokigahara”. Aqui, somos jogados na mente de um jovem com desejos sombrios, que busca a infame floresta de Aokigahara (sim, aquela mesma das lendas urbanas japonesas que inspiraram filmes e até creepypastas na internet!). Mas o que ele encontra ali é algo que transcende o simples desejo de morrer, injetando uma adrenalina estranha, uma espécie de fascínio pelo abismo. A dualidade de sentimentos é palpável, e é um tema recorrente na obra de Ito: a forma como nossos medos e desejos mais profundos podem se transformar em algo monstruoso.
Outro ponto alto para mim foi “Madona”. Adorei ver Junji Ito explorando temas um pouco diferentes, com um terror mais psicológico do que puramente visual. A história de um colégio feminino religioso e uma personagem que se sente “mais santa que Deus” é um prato cheio para críticas sociais. É impossível não traçar paralelos com a hipocrisia e o fanatismo que vemos por aí, e o Ito consegue entregar isso de forma assustadora e atualíssima. É como se ele estivesse nos dando um espelho distorcido da nossa própria sociedade.
Entre o Pó e o Éter: Altos e Baixos da Zona Fantasma
Como toda coletânea, “Zona Fantasma” tem seus picos e vales. E, sendo bem sincera, como fã, senti que os primeiros contos têm uma força narrativa um pouco maior do que os que vêm depois. A partir de “Ao Toscanejar”, que brinca com a vulnerabilidade do sono e sua semelhança com a morte, as tramas se resolvem mais rapidamente e, para mim, com um impacto um pouco menor, embora ainda abordem as mazelas da natureza humana.
“Soberano Demônio da Poeira”, por exemplo, não é um conto ruim, mas é um pouco morno. A ideia de uma família de famosos em ostracismo sendo invadida por uma onda de pó interminável, que esconde segredos obscuros, é interessante. O traço esfumado que ele usa para representar a poeira é um espetáculo à parte, mas, no geral, o clímax e a resolução não me deram aquele frio na espinha que eu esperava de um mangá do Ito. Faltou aquela reviravolta que te faz fechar os olhos e pensar “o que diabos eu acabei de ler?”. O mesmo vale para as três histórias que encerram a coletânea: “Vila do Éter”, “Tio Ketanosuke” (que resgata os Bizarros Irmãos Hikizuri, para a alegria dos fãs mais antigos) e “Carapaças do Pântano Manju”, que, para mim, foi a mais fraquinha do compilado.
Veredito Final: Um Mergulho Obrigatório no Abismo de Ito
Apesar desses altos e baixos, “Zona Fantasma” é uma adição mais do que bem-vinda à biblioteca de Junji Ito no Brasil. Mesmo as histórias com menos peso narrativo ainda são valiosas para entender a evolução do estilo do mangaká e como ele se aventura em tramas com diferentes nuances. E, cá entre nós, não dá para negar o charme de cada conto começando com um personagem te contando algo inacreditável, como se estivéssemos numa roda de amigos trocando histórias de fantasmas.
Ler “Zona Fantasma” é como sentar em um banco de praça ao lado do mestre Ito, ouvindo ele sussurrar todo tipo de atrocidade sobrenatural e superstição. Nem todo “causo” vai te deixar completamente apavorado, mas a experiência como um todo é, sem dúvida, satisfatória e essencial para qualquer fã de horror e para quem quer se aventurar no universo único desse gênio do mangá. Se você curte um terror que te faz pensar e te tira o sono, essa é a sua parada!