Quem é fã de “Pânico” sabe que “Pânico 2” é um filme tenso e cheio de reviravoltas. Mas, convenhamos, o charme do original de 1996 está justamente em subverter a estrutura clássica de três atos. A primeira metade nos apresenta aos personagens icônicos como Sidney Prescott, Dewey Riley e a inesquecível Gale Weathers, nos fazendo suspeitar de cada um deles. Já a segunda parte explode na festa na casa do Stu, com revelações chocantes e um plot twist que ninguém esperava. “Pânico 2” tenta seguir um caminho mais tradicional, mas uma cena em específico grita “refilmagem de última hora”. Bora entender essa história?
A Produção Acelerada de “Pânico 2”
É impressionante como “Pânico 2” chegou aos cinemas tão rápido, menos de um ano após o sucesso estrondoso do primeiro filme. A sequência era inevitável, afinal, “Pânico” conquistou a crítica e faturou uma grana absurda nas bilheterias (mais de 170 milhões de dólares com um orçamento de apenas 15 milhões!). E o retorno valeu a pena: “Pânico 2” repetiu o sucesso do original, arrecadando quase a mesma quantia com um orçamento um pouco maior (24 milhões).
Mas o que torna essa produção tão rápida surpreendente? O roteirista Kevin Williamson já tinha mais de 40 páginas do roteiro prontas quando a sequência foi confirmada, em março de 1997. Essa versão inicial já continha os principais pontos da trama e os quatro assassinos originais: o namorado de Sidney, Derek, sua colega de quarto Hallie, Cotton Weary e Nancy Loomis (a mãe do Billy!). O problema é que, quando a produção engrenou de vez, o roteiro vazou na internet, revelando todos os detalhes da trama e a identidade dos assassinos. Imagina o caos!
A produção continuou, mas Williamson precisou reescrever tudo às pressas para despistar os curiosos. Três mudanças foram cruciais: a identidade dos assassinos, o destino do personagem Randy e a introdução de Joel, o novo cameraman da Gale. Mas a história é ainda mais complexa: Williamson revelou que o roteiro vazado era, na verdade, uma “isca” para confundir os espiões de plantão. Genial, né?
O Que Mudou e o Que Permaneceu?
No fim das contas, Williamson escreveu três finais falsos para manter o suspense. E a versão final do filme é bem diferente do que estava no roteiro original. Derek assume as características de Mickey Altieri (interpretado por Timothy Olyphant), Hallie é dada como morta, mas se revela como uma das assassinas, e por aí vai.
Apesar das mudanças, alguns elementos do terceiro ato permaneceram intactos: o confronto final entre Sidney e os assassinos no palco do teatro, a revelação de Debbie Salt como Sra. Loomis e sua vingança contra Hallie e Derek (com diálogos quase idênticos aos da cena com Mickey) e a cena em que Sidney é escoltada para fora do campus por dois policiais.
Mesmo com essas similaridades, a sequência que vamos analisar agora seria problemática mesmo se o roteiro original tivesse sido mantido. A cena em questão é a da viatura policial, que contém um diálogo bizarro entre Sidney, Hallie e os policiais Richards e Andrews. Hallie pergunta para onde estão sendo levadas, e o policial Richards responde com um sorriso sinistro: “Se a gente contasse, teríamos que matar vocês”. Andrews entra na brincadeira e completa: “Não pergunte, não conte”. É nesse momento que Ghostface ataca.
Essa cena quebra completamente a imersão do espectador. Por que dois policiais encarregados de proteger uma jovem traumatizada fariam piadas macabras sobre assassinato? Eles viram de perto a violência dos crimes no campus! A última coisa que fariam seria brincar com a vítima. Sem falar que o diálogo é bem fraco e destoa da inteligência do resto do roteiro.
O Fator Hallie
É nessa cena também que Hallie se despede da franquia. E essa é, sem dúvida, a maior falha de lógica de todo o filme. Presas no banco de trás da viatura, Sidney e Hallie precisam escalar o Ghostface (Mickey) para escapar. Elas conseguem, mas Sidney decide voltar para o carro para tirar a máscara do assassino.
É compreensível que ela queira saber quem está aterrorizando sua vida, mas a cena é muito estranha. Sidney e Hallie já estão longe do carro, em segurança. É típico de filmes de terror clichês que os personagens voltem para o perigo sem pensar, mas a Sidney não é burra!
Para piorar, a direção da cena entrega o que vai acontecer. Hallie diz para Sidney que “pessoas estúpidas voltam” e que “deveríamos correr”, mas fica parada na rua, ao lado de uma lixeira gigante que poderia esconder um assassino. Sidney se aproxima do carro e, surpresa, Ghostface sumiu! Ele pula da lixeira e esfaqueia Hallie. Para uma franquia que sempre se orgulhou de ser imprevisível, essa cena é o oposto disso.
E como o Mickey saiu do carro sem que Hallie (que estava de frente para o veículo) e Sidney (que o veria pelo canto do olho) percebessem? Filmes de terror podem forçar a barra de vez em quando, mas essa cena ultrapassa todos os limites da lógica.
Hallie pode ter sido uma das assassinas em um roteiro descartado, e muitos fãs acreditam que ela e Derek nunca seriam os vilões na versão final do filme. Mas essa cena tem cheiro de “precisamos nos livrar dessa personagem que não serve mais para a trama”. Com certeza, existiria uma forma melhor de fazer isso.