É 2008: a economia dos Estados Unidos quebra e o mundo mergulha em um colapso de confiança. Antes disso, havia otimismo — a crença de que, com idealismo e trabalho duro, seria possível melhorar o mundo. É nesse cenário que Ella McCay, uma política idealista, vê o cargo de governadora cair em seu colo aos 34 anos. O que seria a oportunidade de uma vida vira um pesadelo para Ella, que só se lasca desde o primeiro dia. O dilema está posto: conseguirá ela ser a figura Imperfeitamente Perfeita que o cargo exige, ou a jovem política simplesmente não está pronta para encarar as velhas estruturas de poder? É assim que James L. Brooks constrói a narrativa de seu filme mais ansioso.
A Simbologia da Família na Política
O texto de Imperfeitamente Perfeita (2025) espelha o Estado na instituição da família e, de forma sagaz, expõe como as estruturas de poder são o subproduto de séculos de relações disfuncionais. Em seu estilo caracteristicamente humanista — e sob vários aspectos, inocente —, Brooks investiga por que aquela onda de otimismo ruiu, dando lugar à polarização atual. Ele utiliza a infidelidade paterna e os traumas herdados como alegorias interessantíssimas para um sistema manchado, onde a integridade parece ter cada vez menos espaço para respirar.
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A política não está nos absurdos institucionais, e sim nos pormenores. No drama pessoal da recém-nomeada governadora, há chantagem pelo poder e a mediação de crises. Manter a família intacta exige uma diplomacia tão ou mais exaustiva do que a necessária para negociar votos e aprovar projetos. O grande ponto é que não dá para lidar com o mundo e suas estruturas de poder de forma rígida. É preciso jogo de cintura e autoconsciência.
O Elenco Fenomenal e a Pintura Fantasiosa
Brooks reuniu um elenco fenomenal. Nomes como Emma Mackey, Jamie Lee Curtis, Woody Harrelson, Ayo Edebiri, Albert Brooks, Kumail Nanjiani e Rebecca Hall ganham campo de sobra para brilhar na pintura fantasiosa e quase teatral que o cineasta constrói sobre essa trama política. No centro de tudo, Emma Mackey entrega o que talvez seja o portfólio mais amplo de sua carreira até aqui.
Transitar pelas linhas do tempo desordenadas do filme não era a missão mais fácil para o elenco. O que começa como uma onda de boas novas rapidamente degenera em um cenário neurótico de correria e desilusões, exigindo que os atores acompanhem essa transição abrupta enquanto executam a difícil tarefa de focar no simples. Brooks demanda precisão no caos, e o elenco responde à altura.
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O Humor Sutil e a Autoconsciência
Como já é característico nas obras do cineasta, o humor está na sutileza. Toda vez que o filme flerta com algo grandioso ou conspiracionista, o assunto é abandonado, como se o texto perdesse o raciocínio para retornar ao drama básico: Ella tendo que se resolver com o pai, o marido e o irmão. Essa fuga é, inclusive, verbalizada pela protagonista em lapsos de autoconsciência, nos quais o roteiro admite sua distração na própria tagarelice.
De forma honestamente atrapalhada e conscientemente imperfeita, James L. Brooks retorna após 15 anos para entregar sua resposta a um mundo moderno onde todos gritam e ninguém se escuta. O apelo final é verbalizado e serve como um lembrete para a era da polarização: “A única forma que existe de não se aprender algo é fingir que já sabe o que não sabe.”
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Classificar a obra como “imperfeitamente perfeita” seria um exagero de minha parte — e iria contra a principal pregação do filme sobre a perfeição ser, em última análise, uma forma de negação. Levar uma vida honesta exige aceitar as imperfeições alheias e as nossas próprias falhas morais. Sob essa ótica, é possível enxergar, sem fazer muito esforço, que Brooks entregou um filme honesto.