A terceira temporada de House of the Dragon chegou com tudo, e o segundo episódio, “Queen’s Landing”, nos entregou um dos momentos mais aguardados (e temidos) pelos fãs dos livros: Rhaenyra Targaryen finalmente sentou no Trono de Ferro. Depois de uma jornada sangrenta e perdas devastadoras – Lucerys, Visenya e, mais recentemente, Jacaerys na Batalha da Goela – ver a Rainha Negra marchar para Porto Real e reivindicar o seu direito foi catártico. Eu, como fã, senti cada passo dela, cada lágrima e cada sacrifício que a trouxe até ali. Mas, para a surpresa de muitos que conhecem a obra de George R.R. Martin, um detalhe crucial foi… omitido. E essa ausência pode mudar *tudo*.
A Conquista Dolorosa de Rhaenyra: O Preço da Coroa
A jornada de Rhaenyra até o Trono de Ferro não foi um passeio no parque, e a série tem feito um trabalho primoroso em nos fazer sentir o peso de suas escolhas e perdas. Chegar a Porto Real foi apenas a ponta do iceberg de suas dores. Ela já havia perdido três filhos, e cada morte foi um golpe no coração que assistia. Lucerys Velaryon, dilacerado por Vhagar em um dos momentos mais chocantes da primeira temporada; Visenya Targaryen, a bebê natimorta que simbolizou a fragilidade de sua posição; e agora, Jacaerys Velaryon, cujo sacrifício na Batalha da Goela abriu a temporada com uma ferida ainda fresca. É impossível não se solidarizar com a personagem, mesmo com todas as suas falhas.
A entrada no Red Keep, embora relativamente “suave” graças à intervenção letal de Daemon Targaryen e sua Irmã Negra, culminou em um encontro carregado de tensão na sala do trono. Rhaenyra, visivelmente abalada, foi confrontada com a tarefa de executar Otto Hightower, o homem que, outrora um aliado próximo de seu pai, se tornou o arquiteto da conspiração para usurpá-la. Confesso que o momento em que ela cumpre a tarefa, mesmo que com dificuldade, foi um misto de alívio e tristeza. Era necessário, mas a mancha de sangue em suas mãos já começava a se formar antes mesmo de tocar o trono.
O Trono de Ferro e Suas Lâminas: Uma Tradição Quebrada?
E então, o momento que todos esperávamos. Rhaenyra, com a alma em pedaços e o corpo exausto, finalmente se aproxima da imponente cadeira feita de mil espadas. Minha respiração ficou presa na garganta. Eu, assim como muitos leitores de “Fogo & Sangue”, esperava o inevitável: as lâminas do Trono de Ferro cortando-a. Essa é uma imagem icônica e simbólica nos livros, um sinal de que o trono a rejeitava, que seus dias seriam poucos e turbulentos.
Mas o corte nunca veio.
Sim, ela não se senta confortavelmente – há uma clara tensão, uma mistura de exaustão e tristeza em seu semblante, longe da glória triunfante que muitos esperariam. Mas não há o sangue *dela* escorrendo pelas lâminas, não há a ferida que, segundo a tradição de Westeros, selaria seu destino. Essa é uma mudança significativa em relação à narrativa original de George R.R. Martin, e levanta uma questão enorme: por que a série optou por omitir um detalhe tão carregado de simbolismo?
O Que o Livro Dizia: Símbolos e Profecias de Ferro
Em “Fogo & Sangue”, a cena da coroação de Rhaenyra é descrita com um detalhe crucial pelo Septão Eustace: “E enquanto seu senhor marido, Príncipe Daemon, a escoltava para fora do salão, cortes foram vistos nas pernas de Sua Graça e na palma de sua mão esquerda. Gotas de sangue caíram no chão enquanto ela passava, e homens sábios olharam uns para os outros, embora nenhum ousasse falar a verdade em voz alta: o Trono de Ferro a havia desprezado, e seus dias sobre ele seriam poucos.”
Essa passagem é fundamental para entender a mitologia do Trono de Ferro. As lendas dizem que o trono “escolhe” quem é digno. Aqueles que não são, ou que são considerados “maus” ou “frágeis” em seu reinado, são cortados pelas lâminas afiadas. Pense em Maegor I Targaryen, o Cruel, encontrado morto no trono, coberto de cortes profundos, como se a própria cadeira o tivesse assassinado. Ou o Rei Viserys I, pai de Rhaenyra, que sofria de constantes cortes que levaram à perda de dedos, um prenúncio de seu reinado que culminou na Dança dos Dragões. Até mesmo o Rei Aerys II, o Rei Louco, era conhecido como “Rei Escama” devido aos inúmeros cortes. Joffrey Baratheon também se corta em “A Fúria dos Reis”, e isso é imediatamente interpretado como um sinal de que ele não é o verdadeiro rei.
É quase um medidor místico de “realeza”, não é? No entanto, o próprio Rei Robert I Baratheon, em “Game of Thrones: Histories & Lore”, desdenha dessa superstição, atribuindo os cortes à forma como os monarcas se sentam ou à própria natureza da cadeira. Mas, para os fãs mais puristas, a ausência do corte em Rhaenyra é um ponto de debate intenso.
O Futuro de Rhaenyra: Uma Nova Rainha para Westeros?
A decisão de House of the Dragon de ignorar os cortes de Rhaenyra no Trono de Ferro é um movimento ousado e, como fã, me deixa com mil teorias na cabeça. A série tem se mostrado mais simpática a Rhaenyra do que os relatos históricos de Westeros (especialmente os de Septão Eustace, que era notavelmente tendencioso contra ela e a favor do “Partido Verde”). Será que essa omissão é uma forma de reescrever o destino da Rainha Negra, livrando-a de um mau presságio e talvez permitindo que ela tenha um reinado diferente do que o livro sugere?
Em um cenário de adaptações que muitas vezes buscam aprofundar personagens e subverter expectativas – como vimos com Daenerys Targaryen em “Game of Thrones”, por exemplo, que teve uma jornada de poder e loucura que dividiu opiniões –, House of the Dragon tem a chance de dar a Rhaenyra uma chance de reinar de forma mais competente ou, pelo menos, de ter sua história contada sob uma nova ótica. Isso não significa que os eventos finais serão drasticamente alterados (afinal, o cânone é o cânone), mas o *caminho* e a *interpretação* desses eventos podem ser profundamente diferentes.
Essa é a grande questão que me deixa roendo as unhas para os próximos episódios. Será que veremos uma Rhaenyra mais forte, mais resiliente e menos “rejeitada” pelo próprio símbolo de seu poder? Ou será que o destino, como as lâminas do trono, encontrará outra forma de se manifestar? Uma coisa é certa: a dança dos dragões está longe de terminar, e o Trono de Ferro ainda tem muitos segredos para revelar.