Pedro Almodóvar, o mestre espanhol do melodrama, sempre nos presenteou com filmes que equilibram o belo e o grotesco, o riso e a lágrima. Desde suas primeiras obras nos anos 80 até “A Sala ao Lado” (2024), ele explora a complexidade das relações humanas com cores vibrantes e narrativas surpreendentes. Mas em “Fale com Ela” (2002), Almodóvar mergulha em um território ainda mais sombrio, questionando os limites da solidão, da amizade e da obsessão. Prepare-se, porque este filme vai te provocar!
Um Enredo Inusitado e Perturbador
“Fale com Ela” nos apresenta a Benigno (Javier Cámara), um enfermeiro que cuida obsessivamente de Alicia (Leonor Watling), uma bailarina em coma. Paralelamente, acompanhamos Marco (Darío Grandinetti), um jornalista que se aproxima de Lídia (Rosario Flores), uma toureira. O destino os une quando Lídia também entra em coma, e Marco e Benigno encontram conforto um no outro. Até aí, tudo “normal” para um filme de Almodóvar. Mas a trama toma um rumo chocante, testando os limites da sanidade e da moralidade.
A Solidão Masculina em Foco
Diferente de outros filmes de Almodóvar, onde as mulheres geralmente são o centro da narrativa (quem não ama as parcerias com Penélope Cruz?), “Fale com Ela” explora a fragilidade e a solidão masculina. Marco se sente incapaz de se comunicar com Lídia, enquanto Benigno encontra em Alicia, mesmo em coma, uma confidente para seus monólogos. Essa dinâmica nos faz refletir sobre a dificuldade dos homens em expressar seus sentimentos e a busca por conexão em um mundo cada vez mais individualista.
A Estética Almodovariana e o Desconforto Visual
A marca registrada de Almodóvar, com suas cores vibrantes e composições elaboradas, está presente em “Fale com Ela”. No entanto, o filme também utiliza imagens perturbadoras para intensificar o desconforto do espectador. A cena da lâmpada de lava no quarto de Alicia, por exemplo, é ao mesmo tempo sensual e inquietante, prenunciando os eventos sombrios que estão por vir. E como esquecer a nudez vulnerável de Alicia, que nos confronta com a fragilidade do corpo e a invasão de privacidade?
O Filme Dentro do Filme: Uma Metáfora Cruel
Um dos momentos mais bizarros (e geniais) de “Fale com Ela” é a exibição de um curta-metragem em preto e branco chamado “O Amante Encolhido”. A história de um homem que se reduz a um tamanho minúsculo e entra no corpo de sua amada sem consentimento é uma metáfora grotesca da obsessão e da violação. Almodóvar usa essa sequência para explicitar o que está implícito na relação entre Benigno e Alicia, elevando o nível de desconforto do filme.
Um Roteiro Premiado e Diálogos Memoráveis
Não é à toa que Almodóvar ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original por “Fale com Ela”. Os diálogos são afiados, engraçados, tristes e, acima de tudo, estranhos. A forma como a trama avança e retrocede no tempo, revelando detalhes cruciais, é magistral. As reviravoltas são chocantes, mas também inevitáveis, como se o destino dos personagens estivesse traçado desde o início.
Um Final Agridoce e Inesquecível
“Fale com Ela” não é um filme fácil de assistir. Ele nos confronta com temas perturbadores e nos deixa com uma sensação de angústia. Mas, como todo bom melodrama de Almodóvar, há uma pequena esperança no final, mesmo que obscurecida pela tragédia. É um filme que fica na sua mente por muito tempo, te fazendo questionar os limites do amor, da amizade e da sanidade. Se você curte filmes que te fazem pensar e sentir, “Fale com Ela” é uma experiência imperdível (e inesquecível).