A Netflix tem uma fama de ser implacável quando o assunto é cancelar séries originais. Mas, acreditem, até hoje não superamos o cancelamento de “Kaos”, a comédia dark e genial de Charlie Covell, inspirada na mitologia grega. A série nos transportava para uma sociedade moderna onde deuses, o submundo e heróis gregos coexistiam, tudo isso com uma narrativa rica e bem construída. E o pior é que a Netflix tomou essa decisão cruel apenas seis semanas após o lançamento, em agosto do ano passado!
“Kaos” tinha um elenco perfeito, era visualmente deslumbrante e a história era daquelas que fisgam tanto os fãs de mitologia quanto o público casual. Sério, até hoje coçamos a cabeça tentando entender o porquê desse cancelamento tão precoce. Era uma obra que merecia ser comparada a “Game of Thrones”, mas com o toque único da mitologia grega!
“Kaos” Não Subestimava o Público, e Talvez Esse Tenha Sido o Problema
Em “Kaos”, Zeus (interpretado pelo irresistível Jeff Goldblum) encontra uma ruga no rosto, bem ali no Monte Olimpo, que mais parece uma mansão mediterrânea dos sonhos. Mas, ao contrário de nós, meros mortais, uma ruga para Zeus pode significar o fim do mundo, já que pode estar ligada à profecia: “Uma linha aparece, a ordem diminui, a família cai e o Caos reina.” A linha é a ruga de Zeus, a família são os deuses do Olimpo e o Caos é o fim do reinado cruel e caprichoso dos deuses sobre os mortais.
Ao longo da temporada, acompanhamos o desenrolar da profecia através da vida de três mortais: Eurídice e seu marido roqueiro, Orfeu, por quem ela já não sente mais amor; Ariadne, filha do Presidente Minos de Creta; e Caeneus, um mortal falecido que agora trabalha no submundo, guiando outros mortos para a “renovação” e libertação de suas almas.
De primeira, os três protagonistas mortais parecem não ter nada em comum. E talvez esse tenha sido um dos motivos para o cancelamento precoce de “Kaos”: o público simplesmente não a entendeu de imediato. Mas a verdade é que a série é uma das poucas que não entrega tudo mastigado para o espectador.
“Kaos” nos deixava com mais perguntas do que respostas no início, mas a forma como Covell ia revelando as informações, aos poucos, tornava a experiência de assistir única e envolvente. No final da primeira temporada, descobrimos que Eurídice, Ariadne e Caeneus compartilhavam da mesma profecia de Zeus, e o sucesso deles em concretizá-la significou que ele e os outros deuses perderam sua imortalidade. Tragicamente, a temporada (e agora a série) terminou com a deusa Hera ordenando que um de seus filhos reunisse as tropas, enquanto Ariadne, agora governante de Creta, faz um acordo com outro grupo de mortais contra os deuses.
Uma segunda temporada de “Kaos” provavelmente seria uma guerra emocionante e cheia de ação entre deuses e humanos. Mas, arriscamos dizer que a sofisticação da série e os altos custos de produção podem ter levado a uma audiência menor e, consequentemente, ao cancelamento. Uma pena, porque fazia tempo que não víamos irmãos incestuosos (Zeus e sua esposa Hera são irmãos!) e narrativas tão intrincadas desde “Game of Thrones”.
“Kaos” Deu Uma Roupagem Moderna e Criativa à Mitologia Grega
A maior decepção com o cancelamento de “Kaos” é que a série tinha um dos melhores world-buildings que vimos nos últimos tempos. A criadora e roteirista de todos os episódios, Covell, criou um universo maravilhoso onde Orfeu é um rock star, as Fúrias são uma gangue de motoqueiras e o submundo é cheio de burocracia, tudo isso mantendo a essência da mitologia grega intacta.
Um dos maiores acertos da série foi trazer à tona o mito de Caeneus. Na mitologia, Caeneus é transformado de mulher em homem pelo deus do mar Poseidon. Em “Kaos”, Caeneus é uma amazona trans que foi morta por buscar viver sua verdade. É uma narrativa linda e cuidadosa, interpretada de forma impecável pela atriz Misia Butler, que foi escalada de forma autêntica.
Jeff Goldblum e o Elenco Brilham em “Kaos”
Além disso, “Kaos” apresenta uma das melhores atuações de Jeff Goldblum nos últimos anos. Ele está calculista e astuto como Zeus, mas o que torna o deus tão perigoso é que ele tem todo o charme e humor sagaz de Goldblum. Vestido exclusivamente com roupas de grife, Zeus não parece ser tão ameaçador quanto realmente é, o que só torna a selvageria de seu governo e seus relacionamentos com os outros ainda mais cativantes de assistir.
E ele é perfeitamente acompanhado por Janet McTeer como Hera, cuja maldade é palpável, mas nunca chega a explodir na superfície. “Kaos” tinha potencial para ser a próxima grande obsessão de todos, mas a Netflix não deu nem 90 dias na plataforma antes de cancelá-la. Um crime, uma verdadeira tragédia grega.